Passeio socrático
As aparências enganam, porém depende.
Outro dia, fazia um passeio socrático em um shopping de alto padrão em Brasília. Para não perder o costume, decidi entrar em uma loja e dar aquela olhadinha. Entre gôndolas e araras, entre uma peça e outra, acionei várias vezes a cara de auditoria. Pode ser que já tenha mencionado, mas cara de auditoria é um recurso crucial que aprendi enquanto trabalhava com gestão da sustentabilidade.
Quando se está diante de um entrevistado, e ele suavemente confessa que, sim, poluiu 423 rios e uma cachoeira e, de bônus, matou a própria mãe, você acena positivamente com a cabeça e emite como som um “uhum”.
Naquele momento, conferindo as etiquetas das blusinhas de R$ 2 mil, — pra confirmar se tinha lido certo —, a cara de auditoria me parecia o único recurso possível. Como se não bastasse, a cena inteira se passava sob os olhos castanhos e gigantescos da vendedora.
Ela perguntou se eu precisava de ajuda, enquanto me olhava de cima abaixo, descaradamente me avaliando, como se eu não estivesse em condições de pagar R$ 2 mil em uma blusinha — e eu não estava mesmo, mas ela não tinha esse direito.
Naquele momento, poderia ter respondido como Sócrates quando os vendedores nas ruas de Atenas o assediavam “obrigada, estou só contemplando o fato de que existem infinitas coisas das quais não preciso para ser feliz”. Ironicamente, nesse dia, me sentia tristíssima e, talvez, se dispusesse de R$ 2 mil assim, de graça, compraria sim a blusinha, só pra me enturmar. Assim, fiz o que qualquer pessoa normal faria: fiquei mais cinco minutinhos enrolando, pegando uma peça aqui, outra acolá. Tentava desesperadamente não dar na cara o que, no íntimo, me consumia “o que eu tô fazendo aqui? eu só tenho seis reais”.
Mas o cerne desse texto não devia ser esse — me desculpem o devaneio. Ultimamente, trabalhando com planejamento financeiro, não paro de pensar no ditado popular milenar “as aparências enganam”. Porque antes de me deparar com os números de pessoas reais, em centenas de casos, constantemente me deixava enganar pelas aparências.
O mais incrível, no entanto, é que posso atestar que está cheio de gente que poderia comprar blusinhas de R$ 2 mil usando blusinhas modestas. E tem gente trajando blusinha de R$ 2 mil atuando no negativo. Um bocado de gente faturando muito e vivendo discretamente, e gente que você olha e deduz “hum, essa pessoa está ganhando muito dinheiro”, sem nem faturar.
E, não, este não é um texto sobre não comprar blusinhas de R$ 2 mil. Atravessando muitas realidades financeiras, vejo como compras e valores podem ser coisas muito, muito relativas. Vale contudo questionar as motivações de nossas aquisições. Mesmo que disponha do valor, é algo que faz sentido?
Você, como meu eu-de-antigamente, talvez se sinta perturbada mediante tantos símbolos e personagens sendo performados por aí. Eu só queria reiterar o que você já sabe: as aparências, sim, enganam.
A não ser que estejamos falando sobre mim, diante da blusinha de R$ 2 mil. Aí não. Nesse caso, as aparências não mentem.
*Tudo que relatei nessas linhas é verdade, exceto pelo que é mentira.


Muito, muito bom!
Hahaha
adoro os seus textos